Quinta-feira à noite, 30/04, fui ao cinema com a Nelis e a Gi assistir O Diabo Veste Prada 2. Programa perfeito: amigas, moda, cinema, uma dose de luxo simbólico e aquele respiro “mulherzinha” que, sinceramente, também faz parte da nossa sobrevivência adulta. A vida não é feita apenas de reunião, entrega, meta, crise, agenda cheia e responsabilidade. É difícil lembrar disso, mas é necessário.
No meio dos looks (quem viu várias mulheres e meninas vestidas a caráter aí nas sessões?) da estética e da nostalgia, Miranda Priestly me levou para outro lugar: liderança, resiliência, reputação e adaptação em um mundo que mudou muito desde 2006. E cá estou eu tirando pó do blog (spoiler: isso vai mudar, aguardem!)
No primeiro filme, Miranda aparece como a editora poderosa da revista Runway, linha dura, brilhante, temida, extremamente competente e, muitas vezes, cruel. Uma mulher que comanda a sala sem precisar levantar a voz, sabe exatamente o que quer, enxerga tendências antes dos outros e construiu uma reputação quase intocável em uma indústria competitiva, vaidosa e implacável. Não obstante, chamada de Lady Dragon, pelos tabloides.
Só que assistir Miranda hoje, vinte anos depois, provoca outro tipo de reflexão. Em 2006, muita coisa que ela fazia ainda era vista como “liderança forte”, a chefe difícil, a gestora exigente, a pessoa genial que podia ultrapassar limites, ou jogar 300 mil dólares fora de um editorial, porque entregava resultado. Hoje, felizmente, essa leitura já não passa tão ilesa.
E acho importante começar por aqui: não dá para romantizar abuso emocional em ambiente de trabalho. Cobrança não precisa virar constrangimento, excelência não precisa ser construída no medo, alta performance não deveria exigir que pessoas se quebrem pelo caminho.
Ao mesmo tempo, também acho simplista olhar para Miranda apenas como uma vilã corporativa. Existe algo nela que continua relevante, não pelo excesso, mas pela régua. Miranda representa excelência, repertório, visão, consistência e autoridade lapidada ao longo do tempo. Ela domina profundamente o negócio, entende o valor da marca, lê contexto, antecipa movimentos e sabe que reputação não se constrói em uma campanha bonita, mas em décadas de entrega. E talvez por isso trabalhar com ela, no universo do filme, abra tantas portas. Não porque o ambiente seja saudável, necessariamente, mas porque passar por uma experiência de altíssima exigência também comunica algo ao mercado, resiliência, capacidade de execução, leitura política, inteligência emocional sob pressão e competência técnica.
A questão é que hoje precisamos fazer uma separação mais madura: dá para admirar a régua alta sem copiar a dureza, aprender com a excelência sem reproduzir o abuso, reconhecer a força de uma líder sem transformar suas falhas em método. Não estou dizendo que seja simples!
Na continuação, Miranda precisa lidar com um mundo em que revistas físicas já não têm o mesmo peso diante das mídias digitais. A Runway, símbolo de poder editorial, enfrenta a possibilidade de venda, o que parecia sólido começa a ruir, e quando o cenário muda, a liderança é testada de verdade. Liderar quando o modelo de negócio envelhece, quando a marca precisa se reinventar, quando o mercado muda e quando o time olha para você esperando alguma direção, é xis da questão. Onde o poder de gerir uma crise, aparece. Quem está comandando o barco, faz a diferença, pois anos de experiência, são colocados a prova.
Nessa hora, Miranda mostra algo que vai além da dureza e firmeza estratégica. Ela pode até perder controle sobre algumas coisas, mas não perde a postura, entende que o jogo mudou, mas não abandona a própria essência. E isso também é uma aula de resiliência. Se adaptar não significa abrir mão dos próprios valores ou se descaracterizar.
Resiliência não é aceitar tudo, não é aguentar abuso calada, não é fingir força enquanto adoece por dentro. Resiliência é seguir de pé quando o cenário muda, ajustar rota sem perder critério, entender quando insistir, quando recuar, quando reposicionar e quando deixar uma versão antiga morrer para que outra possa nascer. Está tudo bem mudar. Você é a mesma de 20 anos atrás?
Andy Sachs, a co-protagonista do filme, faz o contraponto e ajuda muito nessa leitura. Ela é inteligente, sagaz e, talvez o mais importante, não virou uma cópia de Miranda. Aprendeu com uma líder difícil, absorveu repertório, entendeu o jogo, desenvolveu casca, mas preservou consciência própria.E isso é muito poderoso, porque uma das maiores maturidades profissionais é aprender com pessoas difíceis sem se tornar igual a elas.
No mundo corporativo, principalmente para mulheres, existe uma cobrança silenciosa para sermos fortes o tempo todo, disponíveis, estratégicas, impecáveis, produtivas. Firmes, mas não agressivas; humanas, mas não frágeis; ambiciosas, mas não inconvenientes. E, no meio disso tudo, ainda precisamos decidir que tipo de liderança queremos exercer.
Queremos excelência, sim, queremos régua alta, sim, queremos protagonismo, sim, queremos sentar em lugares de decisão, construir reputação, influenciar mercado e ser referência no que fazemos, mas não queremos repetir modelos que adoecem pessoas.
A liderança que o futuro pede não é frouxa, permissiva ou sem padrão, pelo contrário, ela precisa ser consistente, criteriosa e tecnicamente respeitável, mas também precisa entender que pessoas não são descartáveis, que medo não é cultura, que silêncio não é alinhamento e que exaustão não é prova de comprometimento.
Saí do cinema pensando nisso, e também pensando em como esses momentos entre mulheres importam. Entre uma análise e outra sobre liderança, teve risada, teve comentários sobre looks, e comidinhas gostosas após o filme. Teve aquele prazer simples de estar com amigas e suspender um pouco o peso do cotidiano.
E eu gosto dessa mistura, de sair para ver um filme aparentemente leve e voltar com uma reflexão sobre carreira, poder, pressão, reputação e escolhas. Na vida real, também é assim. A gente fala de trabalho enquanto comenta o sapato, fala de liderança enquanto divide pipoca, fala de futuro enquanto ri de alguma bobagem no caminho.
Miranda Priestly continua icônica, mas eu não saí do cinema querendo ser Miranda, nem querendo defender tudo que ela representa. Saí pensando que algumas referências profissionais precisam ser revisitadas com mais maturidade. Dá para reconhecer o brilho sem copiar a sombra, dá para valorizar a excelência sem aceitar a violência e dá para aprender com mulheres fortes sem repetir os modelos que fizeram tantas pessoas confundirem liderança com medo.
Todo dia um aprendizado. Também saber o que não se quer ser e reproduzir, é prática e auto-conhecimento.O que serve, eu levo. O que fere, eu deixo lá, na ficção, ou no passado.














Uma resposta
Uma coisa que impressiona é a visão de longo prazo da Miranda, que consegue perceber cenários, deduzir situações e entender para onde as coisas estão caminhando e é muito legal ver como a Miranda também se readaptou para o mundo 2026. Não perfeita, mas se modelando a necessidade. E a vida é isso, aprender, desaprender e reaprender. De tudo, acredito que ser firme e ser direto, não pode ser confundido com desrespeito e ausência de limites, cargos são passageiros, o que fica é o quanto você marcou a vida das pessoas (positiva ou negativamente).