Sabe aquela imagem clássica do detetive diante de um mural cheio de fotos, pistas e linhas vermelhas conectando informações que, à primeira vista, não parecem ter relação? Sempre me lembro dessa cena quando penso na complexidade dos riscos digitais e na quantidade de informações que precisamos conectar para compreender como uma fraude acontece.
Quem trabalha com segurança sabe que os primeiros indícios de um ataque nem sempre aparecem onde o prejuízo se concretiza. Uma credencial comprometida, uma consulta suspeita em uma API ou uma movimentação incomum em um dispositivo podem parecer eventos independentes, especialmente quando são identificados por equipes diferentes. Enquanto analisamos cada ocorrência dentro da nossa especialidade, os criminosos já aprenderam a explorar as relações entre elas.
Essa percepção ganhou força ao longo da minha trajetória no setor bancário. Trabalhei com Produtos de Segurança e como PM de Dados em Prevenção a Fraudes, desenvolvendo soluções que forneciam informações para os times de estratégia estruturarem regras, matrizes de risco e políticas de mitigação. Mais tarde, ao migrar para Cybersecurity, passei a atuar com produtos voltados à identificação de vulnerabilidades, visibilidade da postura de segurança e fortalecimento dos controles de proteção.
Essa mudança de perspectiva me permitiu compreender melhor as prioridades e limitações de cada disciplina. Embora tenhamos evoluído na construção de ferramentas especializadas, ainda encontramos dificuldades para aproveitar suas informações de maneira conjunta. Muitas vezes, existe um espaço entre aquilo que Cyber consegue identificar e o que Prevenção a Fraudes efetivamente utiliza para tomar uma decisão.
Enquanto isso, o cibercrime desenvolveu um modelo de atuação cada vez mais organizado. Existem grupos dedicados à distribuição de malwares, outros que exploram vulnerabilidades ou comercializam credenciais comprometidas, além de operadores que utilizam essas informações para executar golpes. Técnicas de OSINT (Open Source Intelligence) também fazem parte desse processo, permitindo cruzar dados disponíveis publicamente com informações obtidas de maneira ilícita para conhecer melhor potenciais vítimas.
Nossa trajetória profissional, os vínculos que mantemos e até aspectos da rotina compartilhados em ambientes digitais podem ajudar um criminoso a construir abordagens convincentes. Em muitos golpes de engenharia social, a vítima é surpreendida porque o fraudador demonstra conhecer informações que ela acreditava estarem restritas a pessoas ou instituições de confiança.
Esse cenário me fez refletir sobre como as organizações poderiam aproveitar melhor a inteligência que já produzem internamente. Cybersecurity e Prevenção a Fraudes observam dimensões diferentes de um mesmo ambiente de risco, e essa diversidade de perspectivas representa uma vantagem quando conseguimos conectar as informações.
Cyber possui visibilidade sobre vulnerabilidades, exposição de ativos, credenciais comprometidas, comportamentos suspeitos na infraestrutura e indicadores de ameaças. Prevenção a Fraudes, por sua vez, analisa jornadas e operações financeiras, considerando características dos dispositivos, histórico transacional, padrões de comportamento e relacionamentos entre contas. Ambas desenvolveram mecanismos sofisticados de detecção, mas os sinais identificados por uma delas nem sempre chegam à outra com o contexto e a velocidade necessários.
Um exemplo dessa dificuldade aparece nos golpes de engenharia social. Imagine uma pessoa que recebe uma ligação de alguém se passando por funcionário da central de segurança do banco e, acreditando estar protegendo seu dinheiro, realiza uma transferência para a conta indicada pelo criminoso.
Para os sistemas, a operação pode apresentar características legítimas. O cliente utiliza seu dispositivo habitual, informa corretamente as credenciais e conclui os mecanismos de autenticação. A fraude não depende necessariamente de uma invasão ou de um comprometimento técnico, pois o criminoso explora a confiança da vítima.
Esse cenário é particularmente desafiador para quem trabalha com prevenção. A análise precisa considerar elementos adicionais, como o histórico de relacionamento com a conta destinatária, mudanças no padrão transacional e informações sobre contas associadas a atividades suspeitas. Dependendo das circunstâncias, a inteligência de Cyber também pode contribuir com indicadores de comprometimento de dispositivos, credenciais ou infraestruturas maliciosas.
Em outras situações, os sinais mais importantes estarão nos próprios dados transacionais, sem qualquer evidência de comprometimento técnico. A integração não significa que Cyber terá uma resposta para toda fraude, mas que as áreas podem ampliar sua capacidade de análise quando compartilham informações relevantes.
Outro cenário interessante envolve ataques de enumeração e consultas automatizadas em APIs. Quem atua com segurança provavelmente já acompanhou situações em que volumes anormais de requisições, padrões repetitivos de consulta ou tentativas de contornar controles de acesso exigiram uma resposta rápida para proteger os sistemas.
A atuação de Cyber é fundamental para identificar e conter essas atividades. Entretanto, dependendo das informações acessadas, os registros também podem contribuir para análises de Prevenção a Fraudes. Uma sequência de consultas suspeitas a determinados identificadores, por exemplo, pode ajudar a direcionar investigações ou ampliar o monitoramento de riscos relacionados àqueles dados.
Isso não significa que todas as contas consultadas devam sofrer bloqueios ou autenticações adicionais, já que uma exposição não comprova que haverá uma tentativa de fraude. O valor está em considerar essa informação junto de outros indicadores para decidir quando uma medida preventiva realmente faz sentido.
Foi trabalhando com Produtos e Dados que passei a compreender melhor a importância dessa etapa. Existe uma diferença considerável entre disponibilizar um registro técnico e transformá-lo em informação útil para outra área. Precisamos entender o que aquele evento representa, como os dados serão estruturados e em que momento poderão contribuir para uma decisão.
Na prática, essa integração depende de arquitetura e governança. Ferramentas como SIEM são importantes para centralizar e correlacionar eventos de segurança, mas a conexão com Prevenção a Fraudes pode envolver outras soluções, como plataformas de inteligência, pipelines de dados e serviços que disponibilizam sinais para motores de decisão em tempo real.
A escolha depende da arquitetura e das necessidades de cada organização. Pela minha experiência, as discussões mais produtivas começam quando conseguimos definir quais problemas queremos resolver e quais informações realmente ajudam a resolvê-los.
Também aprendi que a tecnologia, sozinha, não elimina as dificuldades dessa aproximação. Existe um trabalho importante de alinhamento entre equipes que possuem responsabilidades, prioridades e indicadores diferentes, embora compartilhem o compromisso de proteger o negócio.
Em Cybersecurity, determinadas iniciativas estão relacionadas à redução de vulnerabilidades, à proteção de ativos e à capacidade de resposta a incidentes. Em Prevenção a Fraudes, as decisões também precisam considerar perdas financeiras, efetividade dos controles, impacto sobre os clientes e fluidez das jornadas. Esses objetivos não são necessariamente conflitantes, mas exigem diálogo para que as medidas adotadas façam sentido dentro de uma visão compartilhada de risco.
Uma informação tecnicamente relevante, por exemplo, nem sempre justifica interromper uma transação ou exigir uma autenticação adicional. É preciso avaliar sua confiabilidade, os demais sinais disponíveis e o impacto sobre clientes legítimos. Por isso, considero importante que as áreas participem conjuntamente da definição dos critérios de decisão e dos indicadores utilizados para avaliar resultados.
Ao passar de Dados para Prevenção a Fraudes para Cybersecurity, ampliei minha compreensão sobre os desafios envolvidos na produção, proteção e utilização das informações. Algumas decisões que pareciam simples sob uma perspectiva passaram a revelar complexidades técnicas e operacionais quando observadas por outro ângulo.
Essa experiência também reforçou o valor de conhecer melhor as áreas com as quais trabalhamos. Ao longo da carreira, naturalmente desenvolvemos profundidade em determinadas disciplinas, mas compreender as responsabilidades e limitações de outras equipes nos ajuda a construir soluções mais consistentes.
O cenário de ameaças continuará evoluindo, assim como as tecnologias disponíveis para enfrentá-lo. Já temos avanços importantes em inteligência de dispositivos, monitoramento de ambientes, análise comportamental e detecção de operações suspeitas. Ainda assim, existe espaço para aproveitar melhor as informações produzidas por essas diferentes capacidades.
Depois de vivenciar as duas frentes, percebo que parte dessa evolução está na maneira como conectamos o que já conhecemos. Nem todo incidente de Cyber resultará em fraude, assim como nem toda fraude terá origem ema uma vulnerabilidade técnica. Compreender onde essas disciplinas se encontram, porém, pode ajudar a antecipar riscos, qualificar decisões e proteger melhor clientes e organizações.
Hoje, quando penso naquele mural cheio de pistas, lembro também das conversas e dos projetos que marcaram minha trajetória. Muitas vezes, uma informação aparentemente pouco relevante ganhava outro significado quando alguém trazia uma perspectiva diferente para a discussão.
Essa experiência me ensinou que não precisamos dominar todas as disciplinas para trabalhar de forma integrada, mas precisamos estar dispostas a compreender como o conhecimento de outras pessoas complementa o nosso.
Para quem atua na proteção do negócio, essa capacidade de colaboração pode fazer tanta diferença quanto a tecnologia que utilizamos.














Uma resposta
Meus parabéns pelo excelente artigo e conhecimento profundo do assunto. Sua visão ampla e olhar no futuro demonstra a excelente profissional que é.