Invisíveis, Nunca Irrelevantes: Mulheres na História da Segurança

Nos últimos artigos do blog da Risk Women, falamos sobre temas que atravessam a vida profissional feminina: a síndrome da Mulher Maravilha, com a Neli Freitas, os nãos que machucam mas salvam, e as expectativas invisíveis que carregamos sem perceber, com a psicóloga Viviane Pacheco.

Agora, quero seguir outro caminho.

Porque antes de falarmos sobre carreira, burnout, fronteiras profissionais ou autoconfiança, existe algo que sustenta tudo isso: a sensação de estar segura, seja no trabalho, nas decisões e naquilo que sabemos fazer.

E segurança, diferente do que muita gente imagina, não nasceu junto com firewalls, biometria ou comitês. Segurança nasceu de confiança. De consistência. De pessoas que enxergaram risco onde o resto via rotina.

E, surpresa ou não: muitas dessas pessoas foram mulheres.

Algumas famosas (ou pelo menos lembradas quando o assunto é tecnologia. Ada Lovelace, estou pensando em você!). Outras esquecidas em rodapés, relatórios internos ou arquivos militares.

Então hoje, resolvi mudar levemente nosso foco. Ao invés do “como estamos”, quero olhar para quem veio antes. Porque entender essa história não é só cultura geral. É reposicionar o que já sabemos: nós não estamos “entrando” na área de segurança.

Nós estamos continuando um legado.

Vamos à elas? 

Elizebeth Friedman: a inteligência antes do sigilo virar moda

Durante a Segunda Guerra, Elizebeth decifrava mensagens alemãs e redes criminosas enquanto o governo ainda tentava entender o impacto do que estava acontecendo. Ela trabalhava com precisão, sem glamour e sem salário proporcional. Mas era confiável.
E quando o risco era real, chamavam ela.

Reconhece a dinâmica?

Quantas vezes, hoje, equipes de risco e segurança só são lembradas depois que algo quebra? É raro mas acontece sempre!

 

Grace Hopper: estrutura é proteção

Grace não inventou um sistema para parecer inovadora. Ela criou um compilador porque entendeu algo simples: se você quer escala, precisa padronizar a linguagem. Sem estrutura, não existe previsibilidade. Sem previsibilidade, não existe controle. Sem controle, não existe segurança.

É o mesmo raciocínio que aplicamos quando falamos de governança, controles mínimos e boas práticas. Não é burocracia. É estratégia. 

Radia Perlman: garantir que o caos não domine

Radia desenvolveu o protocolo que evita que redes entrem em colapso. Foi trabalho de bastidor, nada cinematográfico. Mas foi essencial.

Porque segurança não é glamour. É continuidade. E continuidade só existe quando alguém pensa em cenários que ninguém quer acreditar que podem acontecer. Da minha perspectiva, a Radia é precursora da metodologia e organização para controles. Quem nunca teve que montar um plano de continuidade de negócios que atire a primeira pedra.

Hoje vemos um movimento crescente de mulheres ocupando esse espaço: prevenção à fraude, privacidade, governança, resposta, risco e segurança. Algumas com títulos. Outras só com responsabilidade. Todas com impacto.

E o ponto aqui não é dizer que “agora estamos chegando”. A verdade é que sempre estivemos por perto, construindo base, enquanto outros contavam a história.

O que essas pioneiras fizeram no passado é exatamente o que fazemos hoje: criar segurança onde antes só existia intenção.

Quando uma mulher lidera um programa de compliance, cria uma política estruturada ou enfrenta um incidente com serenidade, ela repete o que Grace, Elizebeth e Radia já sabiam: segurança não é sobre medo. É sobre responsabilidade e confiança. E confiança só existe quando o trabalho é consistente, mesmo quando não é visível e não dá manchete, e na maioria das vezes, sem um mesmo “obrigada(o)!”.

Então, quem são as Elizebeth, as Grace e as Radia do nosso ecossistema?

Cada empresa tem uma. Aquela mulher que sabe onde estão os riscos e que faz a pergunta certa quando todo mundo quer encerrar a reunião. Talvez aquela que segura uma decisão errada com firmeza e sem gritar. Que é referência mesmo quando não está no palco. Muitas sustentam o ecossistema nos bastidores.

Se você pensou em alguém enquanto lia, excelente. Na próxima oportunidade ou roda de conversa, fale sobre ela. Mencione. Reconheça. Indique. Convide. Porque o legado não se constrói sozinho, e silêncio nunca foi estratégia de futuro.

História se escreve assim: uma decisão certa, uma referência reconhecida, uma rede que levanta em vez de assistir. Mulheres sempre estiveram na base da segurança, mesmo quando ninguém admitia ou registrava.

Agora, estamos fazendo diferente.
Estamos nomeando.
Estamos visibilizando.
Estamos escrevendo essa história com créditos completos.

Um passo de cada vez, mas desta vez, juntas e em voz alta.

Por Lygia Barbosa 

Respostas de 2

  1. Parabéns, pelo artigo, que, além de evidenciar os feitos dessas mulheres talentosas, maravilhosas e importantes, nos eleva energeticamente por perceber que também temos em nós um pouco de cada dos atributos delas, e somo mais do que imaginamos.

    As melhores energias estão com vocês, Mulheres confiantes e com o olhar de segurança, proteção..

  2. Que texto incrível, Lygia. Ele toca em algo que, do ponto de vista psicológico, é transformador: a percepção de segurança como sensação interna antes de ser processo técnico. Você resgata o legado de mulheres que sustentaram estruturas inteiras com consistência emocional, visão e coragem — exatamente o que ainda vemos hoje nas áreas de risco e prevenção.
    Como profissional de Prevenção e também psicóloga, reconheço o poder disso: quando mulheres entendem seu impacto, fortalecem não só sistemas, mas a própria identidade profissional. Seu texto nos lembra que não estamos começando — estamos continuando um legado de lucidez, responsabilidade e presença.
    Obrigada por reacender essa consciência. É assim que seguimos: com técnica, mas também com profundidade humana, juntas e em voz alta.

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